08/07/09

O primeiro “arco” dos X-Men de Warren Ellis (e Simone Bianchi).


Recentemente, a Panini começou a publicar a fase da Astonishing X-Men escrita pelo inglês Warren Ellis e ilustrada pelo italiano Simone Bianchi. Por coincidência, também acaba de ser lançado nos Estados Unidos o último capítulo do primeiro “arco” escrito por Ellis, que é também a última edição ilustrada por Bianchi. Aproveito então a oportunidade para fazer a análise das seis edições produzidas pela dupla e ainda dos dois números da minissérie Astonishing X-Men: Ghost Boxes, também escrita por Ellis e desenhada por diferentes ilustradores, com capas ilustradas por Bianchi.

Devido ao sucesso dos filmes e a algumas boas HQs produzidas por autores como os escoceses Grant Morrison e Frank Quitely, na última década os X-Men voltaram ao primeiro plano dos quadrinhos. Com o lançamento em 2004 da série Astonishing X-Men, criada pelos norte-americanos Joss Whedon e John Cassaday, a Marvel consolidou um modelo editorial que soma qualidade autoral e bons resultados comerciais. Mas, como estava pré-determinado, após vinte e quatro edições e um especial elogiados pelo público e pela crítica, os autores deixaram a revista em 2008, abrindo caminho para o inglês Warren Ellis e o italiano Simone Bianchi. Contudo, famosos por trabalhos mais autorais, os atuais responsáveis pela Astonishing X-Men talvez não consigam agradar tão unanimemente quanto seus antecessores.

Estreando na Astonishing X-Men n°25, Ellis e Bianchi trabalharam no mesmo modelo editorial que a Marvel adotou para a primeira fase da revista. A fórmula é contratar autores renomados para produzirem uma série limitada que dará origem a coletâneas com seis capítulos cada, que depois ganharão reedições ampliadas com doze capítulos, sendo que provavelmente mais tarde tudo será reunido num único calhamaço com centenas de páginas (a omnibus edition). Mas, desta vez, a fórmula pode não funcionar tão bem, já que a Marvel reuniu numa mesma série comercial dois autores com trabalhos marcantemente pessoais. Isso é o que vemos nas primeiras páginas produzidas pela dupla, que não repetem o caráter mais clássico da fase anterior, baseando-se em temas recorrentes e num estilo pessoal inconfundível.

Na primeira página de Astonishing X-Men n°25, uma nota editorial anuncia: “Uma nova era na história mutante começou. Com sua antiga base destruída, os X-Men transferiram-se para São Francisco na esperança de estabelecer um novo refúgio para sua raça. Com os mutantes agora reduzidos a poucas centenas, o líder dos X-Men, Ciclope, está determinado a proteger essa frágil comunidade por quaisquer meios necessários”. O que vemos a seguir, no entanto, não é nada tão dramático: Wolverine dormindo numa árvore, Fera cantarolando, a nova x-man Armadura reclamando de seu codinome, Ciclope e Emma Frost acordando juntos, a chegada de Tempestade... Sucedem-se então questões acerca da qualidade do café, diálogos cheios de implicâncias e cinismo, explicações sobre a nova estratégia de atuação do grupo...

Quando a revista está caminhando para o fim, finalmente os X-Men entram (quase) em ação, ao serem chamados pela polícia local para auxiliar na investigação de um assassinato envolvendo mutantes. Ellis ainda tem espaço para uma de suas explicações pseudo-científicas, antes de encerrar seu primeiro roteiro para a série anunciando uma trama envolvendo (de novo) naves e tecnologia alienígenas. E é exatamente isso (e um pouco mais de ação) o que vemos em Astonishing X-Men n°26, quando acompanhamos os X-Men numa viagem a um “cemitério de espaçonaves”, onde o mutante assassino se encontra. É introduzido aí o elemento que dá título a esses capítulos: “Ghost Box”, um poderoso aparato de origem extradimensional (sim, novamente Ellis apresenta uma trama envolvendo viagens e conflitos num “multiverso”).

Em Astonishing X-Men n°27, os heróis mutantes estão de volta à base em São Francisco, onde temos mais diálogos ácidos e explicações “científicas”. Mas como os X-Men de Ellis não “esquentam cadeira”, logo partimos numa viagem até uma misteriosa região da China. Em Astonishing X-Men n°28, exploramos a cidade celestial dos mutantes chineses, onde são dadas algumas explicações sobre genética extradimensional. Para agradar aos leitores, o roteirista concede aos X-Men alguma ação contra monstros mutantes, adicionando uma peça ao mistério: o nome de um ex-x-man que andava fora de circulação há algum tempo. Surpreendentemente, isso é quase tudo que vemos nos quatro capítulos iniciais de “Ghost Box”. Assim, no conjunto, as primeiras histórias de Ellis para os X-Men deixam a sensação de muita conversa para pouca história.

Se temáticas e idéias emprestadas de outros trabalhos dão base a “Ghost Box”, o elemento marcante das HQs são as páginas criadas pelo desenhista Simone Bianchi, em parceria com outros artistas italianos. No traço de Bianchi, todos os personagens ganharam novas feições e caracterizações incrivelmente detalhadas (embora nem sempre agradáveis). Refletindo-se nas composições de página e divisões de quadros, o visual privilegia sobreposições e diagonais, elementos decorativos e uma narrativa oblíqua. Áreas em branco e recortes, sombras em aguada e cores mais apagadas dão um tom frio às páginas, combinando com o tema da história. Com tudo isso, as imagens criadas por Bianchi & Cia. são visualmente impressionantes, mas destoam um pouco do dinamismo que se costuma esperar de uma revista dos X-Men.

Com um estilo tão elaborado e trabalhoso, Bianchi e seus colaboradores não conseguiram acompanhar a periodicidade mensal da série (mais uma prova de que padrões editoriais e qualidade artística nem sempre combinam). Para compensar, a Marvel lançou a minissérie em duas edições Astonishing X-Men: Ghost Boxes, escrita por Ellis e ilustrada por diferentes desenhistas, tendo apenas capas ilustradas por Bianchi (o que se fez para manter uma unidade visual com a série principal). Com duas histórias de oito páginas em cada edição (além do texto original dos roteiros e de reproduções das páginas a lápis), a minissérie mostra acontecimentos em quatro Terras diferentes, envolvendo tramas e invasões extradimensionais (um tema excessivamente recorrente nos trabalhos de Ellis, bastando citarmos Authority e Planetary).

Na primeira das quatro histórias, vemos o trabalho dos veteranos Alan Davis e Mark Farmer, numa HQ centrada no mutante assassino que apareceu em Astonishing X-Men n°26. As três narrativas seguintes têm artistas menos conhecidos e são narradas na perspectiva de três diferentes X-Men (Emma Frost, Ciclope e Armadura). A primeira história curta de Ghost Boxes, com sua temática dos universos paralelos, tem um gostinho da Captain Britain que Davis produziu para a Marvel Britânica nos anos 80. Já as HQs seguintes, ilustradas por Adi Granov, Clayton Crain e Kaare Andrews, têm um visual mais sombrio e um tom pós-apocalíptico. No geral, sem diálogos cínicos e tendo roteiros mais concisos, o trabalho de Ellis nas duas edições da minissérie é até mais interessante do que o visto nos capítulos da série regular.

Astonishing X-Men n°29 começa ainda na cidade celestial chinesa, onde os X-Men continuam buscando informações sobre a invasão extradimensional. Com imagens amplas e poucos quadros por página, duas páginas de um só quadro e uma outra página dupla, mais uma vez o destaque são as imagens produzidas por Bianchi e seus colaboradores. Quanto ao roteiro de Ellis, novamente sobra conversa e falta história. Em Astonishing X-Men n°30 as coisas não mudam muito: o roteiro deixa a desejar e as imagens são espetaculares (ainda melhores, aliás, que nas edições anteriores). Com direito a uma página-pôster na despedida de Bianchi do título, esta edição final fecha deixando a sensação de que Ellis ainda precisa mostrar a que veio (o que ele poderá fazer na continuação da série, em parceria com Phil Jimenez).

A edição final da parceria Ellis & Bianchi mal esfriou e a Marvel já anunciou para meados de agosto o lançamento da coletânea em capa-dura Astonishing X-Men: Ghost Box. Já para quem quiser conferir em português, a atual fase dos heróis mutantes é publicada no Brasil nas páginas de X-Men Extra da Panini. E para saber mais sobre os heróis mutantes da Marvel e outros temas tratados nesta postagem, clique nos marcadores abaixo.

07/07/09

Inscrições abertas para o CURSO DE QUADRINHOS!


Estão abertas as inscrições para a nova turma do Curso de Quadrinhos no Centro Cultural UFMG, em Belo Horizonte. Acontecendo desde 2004, o curso é coordenado por mim, tendo aulas de desenho com o ilustrador Rubens Lima. A proposta é apresentar aos alunos os principais elementos da arte dos quadrinhos, possibilitando que eles desenvolvam suas próprias criações.

Voltado a pessoas que queiram se iniciar, aprimorar ou conhecer melhor essa fascinante linguagem artística, o curso terá duração de 4 meses (10 de agosto a 30 de novembro). As aulas acontecerão às segundas e quartas, das 19h às 21h e os alunos inscritos receberão uma apostila com o resumo do curso. A turma deste segundo semestre terá o máximo de 20 alunos e a idade mínima para se inscrever é de 12 anos. No momento da inscrição, deverá ser paga a taxa de R$ 30,00. As 4 mensalidades terão o valor fixo de R$ 80,00 e serão pagas ao longo do curso.

Partindo de aulas expositivas amplamente ilustradas sobre a origem histórica, a linguagem e os principais artistas dos quadrinhos, o curso trará em seguida noções básicas de desenho de objetos, personagens e cenários. Estas aulas iniciais servirão de base para a segunda parte do curso, na qual o professor acompanhará os alunos na produção de suas próprias histórias em quadrinhos, que ao final serão reunidas num fanzine.

CURSO DE QUADRINHOS
Horário: segundas e quartas, das 19h às 21h (10 de agosto a 30 de novembro).
Valores: taxa de inscrição de R$30,00 + 4 mensalidades de R$80,00.
Local: Centro Cultural UFMG (Av. Santos Dumont, 174 - Centro, BH)
Mais informações e inscrições: (31) 3409-1090.

05/07/09

Muiraquitã: aventuras, mistérios e lendas.


Um de meus projetos mais extensos nos últimos anos foi o álbum Muiraquitã, concluído em 2004 e publicado em 2006 numa edição independente. Ganhador do Troféu Casa dos Quadrinhos de melhor lançamento mineiro do ano, a HQ surgiu em 2002, após a morte do mestre Flavio Colin, tendo sido uma espécie de “trabalho de luto” pela perda de um amigo muito querido. Com 116 páginas desenhadas por Laz Muniz, Muiraquitã é uma viagem de aventuras e mistérios por locais simbólicos do Brasil, em que encontramos versões modernas de algumas das principais lendas brasileiras.

A história começa quando, numa viagem à Amazônia, o biólogo Miguel de Andrade “acidentalmente” encontra um misterioso talismã em forma de rã. De maneira inexplicável, a esculturinha verde ganha então vida, incorporando-se a Miguel. Na busca por compreender esse estranho acontecimento, o rapaz conhece o Professor Cornelius Flamarion e acaba se juntando à Sociedade de Estudos Sobrenaturais (SES), uma organização dedicada a desvendar casos envolvendo seres lendários. A partir daí, acompanhamos Miguel e o Professor em viagens e investigações por diferentes lugares do país. Ao longo do caminho, encontramos lobisomens e bichos-papões, conhecemos a lenda das Icamiabas e descobrimos vários seres folclóricos vivendo secretamente em nossas cidades. Se não bastasse, um terrível monstro mitológico surge para acrescentar ainda mais aventura e mistério a essa história.

Para quem quiser conferir, Muiraquitã tem formato 17cm x 24cm, com 120 páginas mais capa dupla, estando disponível para venda a preço promocional na loja do Mais Quadrinhos.

03/07/09

Mitos Solares (3).


“Solo Sagrado”, segundo capítulo na reformulação de Solar, será dividido em três partes de dezesseis páginas cada uma. A primeira e a última delas trarão as narrativas mitológicas desenhadas por Luciano Irrthum e Laz Muniz. Já a segunda parte será inteiramente desenhada por Rubens Lima, e também nela teremos uma narrativa mitológica ligada à história maior. Neste caso, porém, no lugar dos mitos indígenas brasileiros, o tema será o mito de origem egípcio, cuja primeira página vemos acima. No fim, tudo se encaixa na história de Solar.

02/07/09

Mitos Solares (2).


Outra importante fonte de inspiração para Solar foi o livro Maíra de Darcy Ribeiro, que forneceu informações significativas sobre a cultura e os mitos dos índios da Amazônia. Parte dessa inspiração literário-antropológica foi apresentada em 1997 na revista Caliban n°s 2 e 3, fazendo parte também da reformulação do personagem iniciada em 2004. Embora o que chamo hoje de “versão apócrifa” tenha sofrido vários problemas e vá permanecer inédita, ela rendeu pelo menos um fruto significativo: uma nova adaptação quadrinística para os mitos do Sol, com desenhos produzidos por Laz Muniz.

O trabalho acabou ganhando autonomia em relação à história maior da qual fazia parte. Com isso, renomeada como “Ciranda Coraci”, a HQ de dez páginas foi publicada independentemente da série Solar, na revista Graffiti n°16. Por apresentar os mitos amazônicos de forma mais completa e poética, essa narrativa também não poderia ficar de fora da versão definitiva do herói. Enquanto “Solo Sagrado” não chega, apresento aqui uma das páginas da narrativa mitológica que será contada por um dos personagens.